Em um país com 80% das pessoas na pobreza e desemprego de 58%, ir à Copa é um milagre e uma benção

Escrito por: Redação

 

Na última terça-feira, a Síria buscou um incrível empate por 2 a 2 com o Irã, fora de casa, aos 48 minutos do segundo tempo, e se classificou para a repescagem das eliminatórias asiáticas para a Copa do Mundo de 2018 – o adversário será a Austrália, 3ª colocada do grupo B, ainda sem datas definidas.

 

O resultado é impressionante por vários motivos, mas principalmente porque a Síria vive em guerra civil desde 2011, com duelos entre forças do Governo e opositores que querem derrubar o ditador Bashar al-Assad, no poder desde 2000 – ele sucedeu seu pai, Hafez al-Assad, que ficou três décadas no comando na nação.

 

Os conflitos armados, que hoje também contam com grupos como o “Estado Islâmico” e forças separatistas curdas em outras frentes, já deixaram mais de 500 mil mortos, e os números aumentam a cada dia, principalmente devido a bombardeios.

 

Esses seis anos trágicos devastaram o país do Oriente Médio, no qual hoje 80% da população vive abaixo da linha da pobreza. Hoje, 70% dos sírios estão no que a ONU (Organização das Nações Unidas) classifica como “extrema pobreza”, que é quando alguém não tem condições nem mesmo de suprir as necessidades básicas de alimentação. Esses números são de um estudo feito em 2016, e esses dados certamente pioraram desde então.

 

Também devido à guerra civil, hoje 58% dos habitantes da Síria estão desempregados. Entre os 42% que possuem trabalho, muitos estão na informalidade, atuando como contrabandistas, soldados mercenários ou em qualquer outra “profissão” que sustenta a “economia da guerra”.

 

Além disso, metade das crianças já não vai mais à escola, o que indica que a Síria terá uma “geração perdida de jovens”. Até porque boa parte dos prédios dos grandes centros urbanos, como as cidades históricas de Aleppo, Homs e Palmira, foram destruídos por bombardeios e morteiros (incluindo escolas).

 

A saúde pública também vive caos. Desde o início dos conflitos, a expectativa de vida caiu em 20 anos. Muito disso graças à volta de doenças que antes estavam controladas, como febre tifoide, tuberculose, hepatite A e cólera.

 

Além disso, a poliomielite, que estava erradicada há anos na Síria, foi reintroduzida, muito disso graças a soldados que chegaram do Afeganistão e do Paquistão para combaterem nas várias frentes dessa guerra que parece não ter fim.

 

Atualmente, a Síria perdeu 11,5% de sua população pré-guerra para os conflitos (ou por mortes relacionadas a eles, como falta de atendimento em hospitais). Quem sobreviveu optou por buscar refúgios em vários países, abandonando uma vida toda para trás.

 

Uma pesquisa feita em 2015 pela ONU com refugiados que foram para a Grécia, um dos países que mais recebeu imigrantes desde o início dos conflitos, mostrou inclusive que 86% dos adultos que abandonaram o país do Oriente Médio possuem segundo grau completo ou ensino superior, sendo que a maioria tem menos de 35 anos. Isso significa que a Síria está perdendo justamente as pessoas que irá precisar para se reconstruir nos futuro, quando um dia a guerra terminar.

 

O custo dessa reconstrução, aliás, será astronômico. Um estudo publicado no ano passado estima que as perdas econômicas causadas pelos conflitos já estão na casa de US$ 275 bilhões (R$ 856,83 bilhões), principalmente porque as indústrias do país forma devastadas durante as lutas armadas.

 

Além disso, há o custo para reconstruir toda a infraestrutura da nação, de estradas a hospitais. O Fundo Monetário Internacional estima que serão precisos até US$ 200 bilhões (R$ 623,15 bilhões) para que isso seja feito.

 

Enquanto o país é dizimado, a seleção de futebol da Síria vem conseguindo ao menos dar um pouco de alegria para seu sofrido povo.

 

Fazendo um trabalho espetacular em condições extremamente adversas, o técnico Ayman Hakeem teve apenas uma derrota nos últimos 10 jogos, mesmo com sua equipe tendo que jogar sempre em campo neutro quando é mandante, já que a Fifa impede partidas em países que estão em conflito bélico – a Malásia foi um dos países que topou receber os jogos da Síria.

 

Por sorte, a AFC (Confederação Asiática de Futebol) concordou em pagar todas as passagens aéreas e estadias em hotéis da seleção síria, a partir de uma premiação de US$ 2 milhões (R$ 6,23 milhões) devida ao time pela classificação à 2ª fase das eliminatórias.

 

Dinheiro que está no limite, já que a equipe viajou quase 15 mil km de avião ao redor do continente asiático para disputar suas partidas.

 

Apesar disso, os resultados recentes foram épicos: vitórias sobre China, Catar e Uzbequistão, justamente as equipes que disputaram ponto a ponto a ida à repescagem asiática, além de um empate com a Coreia do Sul e duas igualdades com o Irã, justamente a seleção que dominou o qualificatório e se classificou com muita antecedência.

 

Tudo isso mesmo em condições financeiras muito adversas.

 

Em entrevista à BBC, por exemplo, o auxiliar-técnico da seleção, Tarek Jabban, revelou que seu salário é de apenas US$ 100 (R$ 311,57) por mês.

 

“Faço o que faço por amor”, afirmou.

 

Muitos atletas também não têm vida fácil. Seis dos 23 jogadores chamados na última convocação atuam no Campeonato Síria, cuja média salarial é de US$ 200 (R$ 623,15) por mês para os atletas de melhor nível, e na qual o time que é campeão nacional ganha um prêmio de US$ 10 mil (R$ 31,15 mil).

 

Apesar da crise, a FASF (Federação de Futebol da Síria) vem se esforçando para dar bons “bichos” para os atletas e membros da comissão técnica. Cada vitória vale US$ 1 mil (R$ 3.115) para cada membro do time. Isso é praticamente um ano de salário para um jogador comum da liga síria, e uma quantia monstruosa se comparados aos salários médios dos trabalhadores normais de um país que viu sua moeda ser desvalorizada em mais de 1.000% desde o início da guerra civil.

 

A maior parte dos convocados, porém, conseguiu “escapar” da dureza do futebol sírio e hoje defende equipes de países próximos, como Iraque, Jordânia, Egito, Arábia Saudita, Irã, Catar e Kuwait.

 

Outros foram para distâncias maiores, como China, e outros só encontraram refúgio em clubes inexpressivos, como o goleiro Mahmoud Al-Youssef, que atua pelo Maziya, das Ilhas Maldivas.

 

Os que atuam no exterior confessam que temem pela vida dos que ainda moram na Síria. Muitos deles, inclusive, desistiram de jogar pela seleção depois que os conflitos começaram.

 

“Conheço quase todos os jogadores do time atual e falo com eles diariamente. É muito triste, pois sei das condições extremamente difíceis que eles enfrentam todos os dias”, disse à BBC Mohammad Ibrahim, jogador revelado pelo Al-Karamah, um dos clubes mais tradicionais de seu país, mas que deixou a Síria para jogar na Arábia Saudita e depois na República Tcheca e Jordânia.

 

Quanto ao valor de mercado, toda a seleção síria hoje vale 6,4 milhões de euros (R$ 23,8 milhões), segundo o site especializado Transfermarkt. Esse valor é quase 35 vezes menos que a transferência do atacante Neymar do Barcelona para o Paris Saint-Germain, por 222 milhões de euros (R$ 826 milhões).

 

O atleta mais valorizado do time é o atacante Omar Al-Soma, que defende o poderoso Al Ahli, da Arábia Saudita, um dos clubes mais ricos da Ásia: 4,7 milhões de euros (R$ 17,48 milhões). Foi justamente de Omar, aliás, o gol salvador aos 48 minutos que colocou os sírios na repescagem da Copa do Mundo.

 

Completar o “sonho impossível” de ir à Copa seria praticamente um milagre, já que a Austrália é ampla favorita para ficar com a vaga final da Ásia no torneio.

 

Mas se tem uma seleção para quem nada é impossível, essa seleção é a Síria.

 

 

 

 

 

 

 

 

Fonte: ESPN

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